ASemana Santa começa no Domingo de Ramos, uma homenagem à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e sua Paixão. É uma celebração que até mesmo os protestantes, tipicamente desacostumados com as práticas litúrgicas da Igreja, ainda celebram de alguma forma.

É fácil entender porque todos os cristãos desejam continuar essa tradição. Com sua procissão de ramos e a solene proclamação da narrativa da paixão, o Domingo de Ramos é uma das mais dramáticas liturgias do ano cristão. Mas, também é uma das mais chocantes. Em um minuto, estamos saudando Cristo com ramos e gritando “Hosana” e, no seguinte, estamos gritando “Crucifica-o”.

Eu confesso que tiveram épocas que eu desejei que não tivéssemos os dois num mesmo Domingo. Parecia melhor ficar com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém por uma semana antes de se tornar a tragédia da traição e sua crucificação no Domingo seguinte. Mas, ter esses eventos aparentemente contraditórios justapostos é totalmente apropriado para a natureza da realeza de Cristo, além de ser representativo para nossa própria vida espiritual. Depois de olhar para as origens históricas do Domingo de Ramos, nós veremos como ele é um ótimo lembrete de que, para recebermos Cristo como rei das nossas almas e sociedades, nós devemos deixar seu caminho livre, e abaixar as nossas mantas de pecado, para que ele triunfante pise sobre elas, no balançar dos ramos da fé, esperança e caridade, com os corações cantando alegres músicas de louvor.

As origens históricas do Domingo de Ramos

O costume judeu de comemorar eventos significantes da salvação continuou na Igreja, com o foco na pessoa e serviço de Cristo. A reconstituição realizada pela Igreja da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, com os gritos de “Hosana” e o balançar dos ramos, que levou à procissão litúrgica de Ramos, parece ter origem em Jerusalém no século quarto. Essa prática incluía a leitura de passagens relevantes da Escritura, canto de hinos e visita a vários lugares sagrados da cidade. O costume foi se espalhando pela Europa, e o rito de abençoar os Ramos e a procissão parecem ter surgido no século oito durante o reinado de Carlos Magno. No século XI, esta prática tornou-se comum na Europa. Em algumas regiões, onde os ramos não cresciam naturalmente, flores e outras plantas eram usadas no lugar. Algum símbolo de Cristo, seja o Bispo, o Santíssimo Sacramento, os Evangelhos, um crucifixo, ou uma imagem de Jesus em um jumento, lideravam a procissão. O cantar de um dos mais belos hinos da Igreja – “Gloria, laus et honor”  – foi gradualmente incluído depois da sua composição no início do século IX pelo Bispo St. Teodulfo (760-821).

Como sabemos quem é o Rei?

Nos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Jesus começa seu ministério na Galileia, realizando a profecia de Isaías 9, mas gradualmente vai à Jerusalém, realizando a profecia de Zacarias 9. Zacarias professou que um dia Deus iria julgar os inimigos de Israel e restaurar Israel por meio de um rei que entraria em Jerusalém montado num jumento. “Exulta de alegria, Filha de Sião”, urge o profeta, “eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta” (Zc 9,9)

Há um contexto prévio para essa profecia e a sua realização por Jesus. Ela remete à época do reinado do Rei Davi. Foi prometido a Davi que seu filho reinaria para sempre (2 Sm, 7). Mas, obviamente, não estava claro qual dos filhos de Davi seria O filho. Surgiu então uma disputa.

Durante os anos finais do reinado do Rei Davi, seu filho Adonias cometeu um golpe que está lembrado em I Reis 1. Adonias tentou deturpar o trono de seu irmão Salomão por meio de estratégias políticas, litúrgicas e militares. Quando Davi percebeu a estratégia de Adonias, permitiu que Salomão desfilasse em Jerusalém no seu jumento e rapidamente o coroou como rei, em meio a grandes gritos e músicas de alegria (I Rs 1, 28-40).

Jesus é o Filho prometido de Davi

Avancemos rapidamente para a época do exílio, séculos após o Rei Salomão. Quando o profeta Zacarias anunciou que Israel seria restaurada por um rei que entraria em Jerusalém no seu jumento, ele endereçou uma das mais importantes questões que os Israelitas teriam nessa época e durante o ministério de Jesus. Essa pergunta foi: quem é o filho de Davi? Os israelitas foram conquistados e exilados. A linhagem de Davi foi perdida. O profeta Zacarias disse aos israelitas que eles poderiam identificar o filho prometido de Davi da mesma forma que souberam que Salomão, e não Adonias, era o verdadeiro filho de Davi. O Filho de Davi  entraria em Jerusalém em um jumento com gritos e músicas de alegria, como aconteceu com Salomão, séculos antes.

Assim, todos os Evangelhos (Mt 21, 1-11; Mc 11, 1-11; Lc 19, 28-44; e Jo 12, 12-19) retratam o momento em que Jesus entra em Jerusalém como o cumprimento de Zacarias 9. Eles nos contam que, assim que ele se aproxima, as pessoas colocam suas capas para Ele pisar e exclamam: “Hosana! Bendito é ele que vem em nome do Senhor”. Isso foi, sejamos claros, não apenas uma experiência religiosa, mas algo profundamente político. Lá já havia um rei de Israel e, obviamente, um César romano. Quando Cristo entra em Jerusalém como rei, ele questiona tanto o estabelecimento político quanto a liderança religiosa.

Cristo, Rei das Sociedades e das Almas

Isso é tão verdade hoje como foi há dois mil anos. Temos que ter a mente completa de que Cristo é rei não só de almas, mas das sociedades também. Precisamos recuperar o que é comumente chamado de “reinado social de Cristo”, a doutrina que diz que o Reinado de Cristo tem relação tanto com a política, como tem com a espiritualidade pessoal. Isso foi recentemente e profundamente exposto pelo Papa Pio XI, como uma resposta à Primeira Guerra Mundial. Sua resposta foi por meio de uma encíclica chamada “Quas Primas”, mais conhecida pela instituição da solenidade de Cristo Rei.

Pio XI pontuou que o reinado de Cristo é uma consequência da sua divindade. Cristo é Senhor não só dos seus fiéis seguidores, mas de cada criatura, porque Ele é o criador. Literalmente, não há dimensão que exista sem Jesus Cristo, uma vez que toda a criação deve ser ordenada e sujeita a Ele.

Cristo é a fonte mais santa de toda a política terrena e autoridade legal. “Seria um grave erro”, Pio XI aponta, “dizer que Cristo não tem autoridade em questões civis, uma vez que, em virtude do império sobre todas as coisas confiados pelo Pai a Ele, tudo está sobre o seu poder” (Quas Primas, 17). “Não recusem, portanto, os chefes das nações de prestar um testemunho público de reverência e obediência ao império de Cristo em conjunto com o seu povo, se querem a prosperidade de seus países” (Quas Primas, 18).

A cruz grotesca de Cristo é o seu trono glorioso!

Pode parecer estranho passar de comemorar a entrada de Cristo para condená-lo no Domingo de Ramos. Porque então nós juntamos esses dois eventos? Em primeiro lugar, existe o fato de que a exibição de Cristo Rei, paradoxalmente, não se encontra na conquista militar dos seus inimigos, mas na sua crucifixão pelas mãos deles. A grotesca cruz  de Cristo é o seu trono glorioso.

A cruz como forma de execução parece ter se originado durante as conquistas romanas. Soldados romanos exibiam suas vitórias e poder desfilando o líder dos conquistados crucificado em uma “procissão triunfal” pelas ruas. Então, quando os romanos colocaram um escrito na cruz de Cristo que declarava Jesus de Nazaré como “Rei dos Judeus”, era totalmente uma chacota.

Cristãos, no entanto, sabem que esse título é verdadeiro. As Escrituras descrevem a cruz de Cristo como uma vitória e não como uma derrota. Em um momento fascinante de seu ensinamento contraintuitivo, São Paulo diz que Cristo “desarmou” as autoridades deste mundo e os poderes do mal, triunfando pela cruz (Cl 2,15). Enquanto os poderosos de Roma viam, pela crucifixão de Jesus, ainda uma exibição da sua vitória e poder, era a forma, na realidade, que Cristo exercia seu poder e vitória eternos sobre todas as autoridades malvadas e terrenas desse mundo. A razão pela qual nós colocamos no mesmo dia a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e a sua cruz, é porque a cruz é a expressão e forma da sua liderança e poder.

A segunda razão pela qual conectamos o reinado de Cristo, pela entrada em Jerusalém com a sua paixão, é porque captura a dinâmica da vida Cristã. Um minuto estamos louvando a Jesus e, com grande alegria e fervor, e no seguinte estamos pecando e murmurando contra Ele. Com a rapidez que O empossamos em nossos corações, nós O destronamos pelo nosso pecado. O Domingo de Ramos nos mantém honestos sobre a duplicidade de nosso ser e a precariedade da nossa vida espiritual.

O significado do Domingo de Ramos hoje

O que, então, devemos contemplar no Domingo de Ramos? Domingo de Ramos é sobre reconhecer Cristo como o rei que clama e comanda todas as coisas. Isso nos relembra a acolher Cristo não apenas como um amigo e amado Salvador da nossa alma, mas como o Todo Poderoso e o Rei do universo. Chama-nos a empossar Cristo em nossos corações por meio da oração, penitência e louvor. Instrui-nos a sujeitar nosso domínio – nossas casas, nosso trabalho, nosso lugar de lazer e descanso – ao domínio de Cristo Jesus, dizendo na forma que conduzimos nós mesmos, “venha a nós o Vosso reino, seja feita a Tua vontade”. Isso nos lembra para gritar, com cada pensamento, ato, doação, consumo, e voto, “Hosana nas alturas! Bendito Aquele que vem em nome do Senhor!”

O Domingo de Ramos nos convida a reconsiderar nossa lealdade. Quem nos clama? A quem escutar e submeter o nosso julgamento? Quais princípios e prioridades nos dominam? Desafiando aqueles que reivindicam nossa lealdade – sejam celebridades, atletas, cientistas, políticos, comentaristas ou jornalistas – decidimos ceder apenas a Cristo e seus ministros. Recusando-nos a ser sujeito de qualquer ordem, prioridades ou princípios, sejam econômicos, políticos ou sociais quando isso contradiz a agenda do Reinado de Cristo. É o tempo de se tornar tão familiar com o ensinamento social da Igreja quanto somos com os ensinamentos morais e espirituais.

Domingo de Ramos nos relembra da natureza da vida cristã como um contínuo virar-se para a Cruz, em busca do perdão e liberdade sobre o pecado. Isso nos mantém humildes. Isso nos incita ao conhecimento que a espiritualidade cristã não é obviamente triunfante e fácil, mas é uma espiritualidade de ascetismo e mortificação. O poder de Cristo é o poder da cruz, e nós somos animados pelo o seu poder – nós detectamos seu reino nas nossas vidas – quando abandonamos o bem do mundo e os nossos desejos desordenados e buscamos a realidade espiritual. Nós somos animados pelo poder de Cristo quando nos deixamos ser preenchidos com amor e justiça que se obtém pelo elo entre Pai, Filho e Espírito Santo.

Como São Paulo nos diz em Gálatas 5, a liberdade que Cristo nos dá é a liberdade da cruz, liberdade para crucificar as nossas paixões da carne que nos levam à “fornicação, impureza, liber­tinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes”, de forma a dar caminho para a vinda do Espírito Santo, o fruto no qual o “amor, alegria, paz, paciência, gentileza, bondade, fé, autocontrole”. Domingo de Ramos nos relembra que o padrão do reinado de Cristo é ser crucificado nesse mundo e remido pelo Pai no céu.

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Autor: Dr. James R. A. Merrick

Fonte: Ascension Press

Traduzido por Maria Augusta Viegas – Membro da Rede de Missão YOUCAT BRASIL, servindo no Núcleo de Tradução

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