Omagnífico papado do Papa São João Paulo II levantou novamente uma discussão sobre os papas considerados “Grandes” (ou Magnos) na história. Com a adição do pontífice polonês à lista, muitos historiadores agora somam três papas Magnos. Mas, eles se esqueceram de um papa tão grande, tão profundo, que, em sua vida, lidou com desafios diretos à sua autoridade papal, enfrentando cada um com uma coragem que rivalizava com a maioria de seus pares papais. Ele foi o Papa São Nicolau, que também poderia ser chamado de Magno, um papa que, tanto em pensamento quanto em ações, transformou o papado de sua época e a Igreja como um todo.

O Papa São Nicolau viveu em meados dos anos 800, uma época de grande confusão na Igreja. Nos séculos entre a morte do último papa magno, o Papa São Gregório I (falecido em 604), a cristandade enfrentou um ataque violento de muçulmanos militantes e a crescente maré de invasões vikings. Em Constantinopla, a intriga política mudou o trono do Império Bizantino entre famílias. Na Europa, as tribos bárbaras aceitaram a fé, embora na maioria das vezes com práticas pagãs problemáticas misturadas. Em suma, foi um tempo de discórdia. Tempos de discórdia são cenários perfeitos para grandes homens; foi o momento perfeito para um homem como o Papa Nicolau I.

Um Papa Pastoral 

Em Nicolau, vemos um papa com uma forte papalogia, ou teologia do papado. Sua papalogia soa típica hoje, mas na época de Nicolau, sua visão do papado se destacava entre os papas: todas as questões ou discordâncias doutrinárias deveriam ser levadas à Santa Sé para esclarecimento; todos os líderes seculares deviam ver no papa seu juiz e guia; todos os bispos deviam ser aprovados pelo papa, pois ele é o príncipe dos Apóstolos. Como o próprio Nicolau disse: “O Papa julgará a todos e não será julgado por ninguém”. Essa visão forte do papado se manifestou durante o reinado de Nicolau, liderando também alguns dos momentos mais dramáticos da história da Igreja.

Houve o intrigante incidente com os búlgaros, que haviam se convertido em grande número, mas ainda precisavam de uma boa catequese. Sem saber como viver como cristãos (os búlgaros estavam presos no meio de uma disputa sobre se eram cristãos latinos ou bizantinos), o rei búlgaro Boris escreveu ao Papa Nicolau 115 perguntas, muitas das quais soariam estranhas hoje (os búlgaros, por exemplo, queriam saber se homens ou mulheres deveriam usar calças, uma pergunta que Nicolau não sabia ao certo como responder). Outros papas na história da Igreja teriam abordado apenas as questões principais, ou pediriam para um de seus bispos respondê-las; mas, o papa Nicolau se deu ao trabalho de responder cada uma das perguntas, mesmo as mais bizarras. Ao abordar essas questões, Nicolau não apenas aproximou os búlgaros de Cristo, mas também exemplificou como um professor da fé deve educar e inspirar, mesmo em circunstâncias estranhas.

Defensor do casamento 

Outro momento dramático foi quando o Papa Nicolau defendeu o casamento de Lotário II (irmão do Imperador do Sacro Império Romano Luís II) e Teuberga. O casamento foi arranjado, e o descontente Lotário rejeitou sua jovem esposa por sua amante, Valdrada. Buscando o divórcio de sua rainha, Lotário recorreu aos bispos do Sacro Império Romano-Germânico e, após um julgamento em que Teuberga foi forçada a dizer que tinha relações incestuosas antes do casamento, os bispos votaram a favor da proposta de Lotário. Ele mandou sua esposa embora e se casou com sua amante. Teuberga recorreu a Nicolau, que enviou representantes para um sínodo em Metz em 863 (um ano após o segundo casamento de Lotário). Os embaixadores foram subornados a aceitar a posição de Lotário, enfurecendo o Papa Nicolau.

O papa chamou os arcebispos que dirigiram o sínodo a Roma; lá ele os depôs e suspendeu suas atividades como sacerdotes. Os arcebispos voltaram para casa furiosos (eles mais tarde se referiram a Nicolau como “o senhor Nicolau, que é chamado de papa, que finge ser um apóstolo entre os apóstolos e que se apresenta como imperador do mundo”) e o imperador do Sacro Imperador Romano Luís II mandou invadir Roma para colocar o papa em “seu lugar”. Peregrinos e procissões fugiram enquanto o exército franco dilacerava a cidade, destruindo tudo e instaurando o caos. No entanto, apesar dessa ameaça à sua vida, Nicolau recusou-se a retratar sua posição e ceder às exigências de Luís e Lotário. “A Santa Sé não muda de opinião”, disse Nicolau; “Que esses homens carreguem sua vergonha.” Sua tenacidade funcionou; Lotário aceitou Teuberga de volta como sua esposa (embora todo o caso tenha se repetido alguns anos depois, sob o reinado do Papa Adriano II) e os invasores voltaram para casa. Em uma época em que os clérigos discutem novamente os ensinamentos da Igreja sobre o matrimônio, é sábio refletir sobre o que homens como Nicolau fizeram para defender a santidade do casamento, até mesmo arriscando suas próprias vidas.

Firmeza política 

O último momento que examinaremos é a luta de Nicolau com o Patriarca Fócio de Constantinopla. Fócio foi um dos homens mais bem educados de sua época. Ele parecia a escolha perfeita para se tornar o Patriarca de Constantinopla. Infelizmente, Fócio ainda não era um clérigo quando essa ideia surgiu na cabeça do imperador bizantino Miguel, “o bêbado”. Além disso, talvez ainda mais infelizmente, a Sé de Constantinopla já estava ocupada por um Inácio, que estava na lista negra do Imperador Miguel desde que repreendeu o tio de Miguel, Bardas, por suas relações ilícitas com sua nora. O imperador Miguel exilou Inácio e fez com que Fócio fosse colocado em seu lugar. Inácio escreveu ao papa Nicolau, e Nicolau ficou do lado de Inácio (o que não é surpreendente). Apesar das intrigas de bastidores em Constantinopla (que incluíam, entre outras coisas, subornar os legados papais enviados para investigar a situação), Nicolau permaneceu firme. Em 863, Nicolau realizou um sínodo em Roma, que discutiu a situação; a partir da discussão deste sínodo, Nicolau decidiu depor Fócio, excomunga-lo, reintegrar Inácio e depor os embaixadores que foram subornados em Constantinopla. 

Ele enviou cartas informando a Fócio e o imperador Miguel de sua decisão. O imperador Miguel ameaçou invadir Roma; Nicolau respondeu escrevendo uma longa carta resumindo a autoridade que o papa tinha nesses assuntos. Fócio respondeu em 867 “excomungando” Nicolau e todos os que o apoiaram (uma vez que os bispos só podem excomungar enquanto estiverem em união com a Santa Sé, um bispo não pode realmente excomungar o papa). Apesar de tudo isso, Nicolau permaneceu firme.

O tipo de intriga política que causou o cisma levou à sua resolução. Basílio, o macedônio, o segundo no comando do imperador Miguel, assassinou Miguel durante o sono em 24 de setembro de 867. Basílio então se tornou imperador, exilou Fócio e reintegrou Inácio como patriarca. Não sabemos se Nicolau ouviu falar das façanhas de Basílio e da resolução repentina e sangrenta para o cisma; pois ele morreu em 13 de novembro. Sem dúvida, ele não teria aprovado os métodos para resolver o cisma, mas ele pode ter ficado satisfeito com o fato de a Igreja estar novamente unida.

Existem muitas outras histórias do reinado do Papa São Nicolau I, e cada uma das histórias acima pode ser expandida em suas próprias reflexões. No entanto, vemos nessas três histórias os aspectos-chave da missão de um papa. Vemos na história dos búlgaros, o zelo de Nicolau por ensinar as verdades da fé. Vemos no impasse com Lotário, a força de Nicolau  contra a corrupção dos líderes seculares. Vemos no Cisma de Fócio os pontos fortes de Nicolau como o pastor da Igreja. Os católicos de todo o mundo deveriam aprender mais sobre este grande herói da Fé, este grande papa. Ele pode ser frequentemente esquecido, mas sua grandeza não pode ser negada. Ele merece ser listado com seus grandes santos companheiros papais: Leão, Gregório e João Paulo II.

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Autor: Matthew B. Rose 

Matthew B. Rose recebeu seu bacharelado (História e Inglês) e mestrado (Teologia Sistemática) no Christendom College. Ele é o chefe do departamento de religião da Escola de Ensino Médio Bishop Denis J. O’Connell em Arlington, VA, EUA. Matthew tem um blog católico de perguntas e respostas chamado Quidquid Est, Est!, a Catholic. Ele e sua família moram na Virgínia do Norte.

Fonte: Catholic Exchange 

Traduzido por Ludmila Giacone – Membro da Rede de Missão Campus Fidei, servindo no Núcleo de Tradução, além de atualmente participante do Grupo de Estudo YOUFAMILY  em Brasília – DF.

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