Você já tentou contar até um bilhão? Pois é, eu também não. Isso seria uma tarefa difícil e pareceria não fazer sentido algum. Falaremos sobre isso mais tarde.

Em Redemptoris Missio (Missão do Redentor), o Papa São João Paulo II declara a coisa mais estranha para o católico moderno. Ele afirma:

A MISSÃO DE CRISTO REDENTOR, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento. No termo do segundo milênio, após a Sua vinda, uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão está ainda no começo, e que devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço. (RM 1)

Você consegue imaginar isso? Como podemos estar apenas no começo? Pare e tome um momento para absorver esse pensamento cheio de verdade. Passaram-se dois mil anos depois que Jesus andou sobre a terra e, como Igreja, estamos apenas começando nossa missão de fazer discípulos de todas as nações! Mas como podemos ainda ter tanto trabalho pela frente? O que o Papa João Paulo II quer dizer?

Viver em um país de minoria cristã pode ser extremamente aventureiro e surpreendente. Quase todos os dias, pego meu celular, abro o aplicativo Uber e solicito uma carona para algum lugar. Normalmente, meu motorista é alguém de outra religião. Grandes e belas pessoas exibindo estátuas budistas com incenso queimando em seus painéis, roxos e laranjas hindus brilhantes, uma chamada muçulmana para orar no rádio… essas coisas marcam meu dia.

Mas eu cresci no sul da Louisiana (EUA), onde temos uma Igreja Católica a cada 5 km e nos referimos aos nossos bairros como paróquias. A fé católica está em minhas veias, em minha cultura e em minha casa. Já ouvi o Evangelho, tenho uma Bíblia em minha própria língua e meus filhos têm terços e cartões de oração. Mas, apenas a uma viagem de avião, a situação muda bastante.

Muitos ainda precisam ouvir

Quando cheguei a Dhaka, Bangladesh, minha cabeça começou a girar; Eu nunca tinha visto nada parecido antes. Esta capital é o lar de cerca de 20 milhões de pessoas, todas empilhadas umas em cima das outras. Dhaka é uma das megacidades mais densas e superpovoadas do mundo. Eu cresci participando do carnaval quando criança e achava que aquilo era loucura, mas as ruas quentes e úmidas de Dhaka pareciam um desfile de carnaval constante e exagerado de milhões de pessoas. Quando você anda por algumas das ruas de Dhaka, muitas vezes se depara com engarrafamentos de pessoas andando. É uma loucura! Raramente há um fluxo de tráfego consistente, e o homem com a buzina mais alta geralmente controla a rua.

Um dia, em Bangladesh, viajei com dois padres para dentro de uma aldeia periférica, onde encontramos muitos trabalhadores em uma plantação de chá. Essas pessoas trabalhavam dia e noite para levar para casa apenas noventa centavos por dia. Meu coração caiu quando vi mulheres e crianças exaustas e cansadas carregando grandes cestos de folhas de chá em cima de suas cabeças para receber seu minúsculo salário diário.

O que partiu meu coração igualmente foi este fato humilhante: Bangladesh tem uma população total de aproximadamente 167 milhões de pessoas, mas apenas 0,5% de toda a população de Bangladesh é cristã. A maioria deles não conhece o amor de Jesus Cristo.

Contando até um bilhão

A população mundial atual é de 7,8 bilhões de pessoas e está crescendo. Desses 7,8 bilhões, cerca de 3,2 bilhões não foram alcançados e ainda precisam ouvir o Evangelho de Jesus Cristo e responder para segui-Lo. Para colocar isso em perspectiva para você: se você fosse começar a contar hoje, levaria cerca de 31 anos, 251 dias, 7 horas, 46 minutos e 40 segundos para chegar a um bilhão. Provavelmente, você levaria mais do que toda a sua vida para contar até três bilhões se você começasse a contar ao nascer.

Desde o momento do envio dos apóstolos para pregar o Evangelho em todo o mundo até o fim dos tempos, Jesus Cristo convoca sua Igreja para levar seu Evangelho a todas as nações (Mt 28, 16-20). Além disso, a Igreja se refere ao trabalho missionário ou à divulgação do Evangelho entre essas pessoas como missão ad gentes, que em latim significa “às nações”. Ela afirma:

A atividade missionária específica, ou missão ad gentes, tem como destinatários ‘os povos ou grupos que ainda não crêem em Cristo’, ‘aqueles que estão longe de Cristo’, entre os quais a Igreja ‘não está ainda radicada’, e cuja cultura ainda não foi influenciada pelo Evangelho.” (RM 34)

Então, onde estão essas pessoas não alcançadas?

Como um católico de berço, é difícil para mim imaginar que no ano de 2020 existam pessoas na terra que não ouviram o Evangelho de Jesus Cristo, mas lá estavam elas bem diante de mim em Bangladesh. A verdade é que esses 3,2 bilhões de pessoas no mundo em geral nunca (nem uma vez) ouviram falar da Boa Nova de Jesus Cristo.

O Evangelho não foi penetrado e proclamado para eles ou sua família, ou sua aldeia; eles ainda estão verdadeiramente vivendo no escuro, separados de Cristo. Eles estão morando em lugares como Índia, China, Bangladesh, Nepal e muitos outros países asiáticos e africanos. Só a Índia abriga mais de 1,3 bilhão de pessoas, e 98% delas ainda não ouviram a Boa Nova. É sobre isso que o Papa João Paulo II escreveu na Redemptoris Missio. Estamos de fato apenas no início de nossa obra de proclamar Jesus Cristo ao mundo.

Aqui estou, Senhor, envia-me!

Porém, como invocarão Aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas-novas?” (Rm 10, 14-15)

O Evangelho está cheio de homens e mulheres que encontraram Jesus Cristo e suas vidas nunca mais foram as mesmas. Veja a vida dos apóstolos. Todos eles deixaram algumas ou muitas coisas para trás para dedicar seu tempo, energia e vida à proclamação do Evangelho. Nenhum deles permaneceu o mesmo quando encontraram Jesus. Além disso, cada um deles foi enviado para longe, ao mundo, como discípulos missionários. Havia uma necessidade tremenda em torno deles e eles foram, sem pensar no custo.

E quanto a mim? E a você? A missão da Igreja é a mesma hoje como era há mais de dois mil anos.

“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” (Mc 16, 15)

Essa é a nossa missão; essa é a missão da Igreja. Como estamos indo? Estamos nos empenhando e alcançando os não alcançados com o Evangelho de Jesus Cristo? Suas necessidades espirituais consomem nossos corações como na Igreja primitiva? Somos mulheres e homens em chamas pelo amor e misericórdia de Jesus Cristo e pela grande glória de sua Igreja?

Ao sentar-me para tomar uma xícara de chá com uma humilde família católica de Bangladesh em sua pequena e pobre casa de paredes de barro, aprendi que a Igreja ali tinha uma fé tremenda, mas tinha pouco ou nenhum recurso, formação e infraestrutura. Seus padres e religiosos dificilmente conseguiam atender às necessidades diárias da pequeníssima Igreja Católica ali, mas, sozinhos, alcançaram cerca de 167 milhões de pessoas que ainda não tinham ouvido falar de Jesus. Os leigos eram frequentemente mal formados e apenas quando adultos estavam começando a conhecer os fundamentos de sua fé. Mais uma vez, meus olhos foram abertos. Pensei comigo mesmo: nos Estados Unidos temos tantos católicos bem formados e cheios de recursos, mas tendemos a permanecer onde estamos.

Comprometendo nossa energia

Adiante no mesmo documento, Redemptoris Missio, o Papa João Paulo II afirma:

Deus abre, à Igreja, os horizontes de uma humanidade mais preparada para a sementeira evangélica. Sinto chegado o momento de empenhar todas as forças eclesiais na nova evangelização e na missão ad gentes. Nenhum crente, nenhuma instituição da Igreja se pode esquivar deste dever supremo: anunciar Cristo a todos os povos. (RM 3)

Ao ler essas palavras, tenho que me perguntar com humildade e honestidade: Quanta energia dediquei em minha vida a uma nova evangelização e à missão para as nações?

Se eu começar a contar até 3,2 bilhões, sim, de fato, ficarei inacreditavelmente sobrecarregado com a grande tarefa diante de mim. Mas, se eu olhar para dentro da minha própria alma no final da missa, serei lembrado de duas coisas: recebi Jesus Cristo em sua plenitude e totalidade na Palavra de Deus e na Eucaristia, e esse mesmo Jesus Cristo está me enviando ao mundo inteiro para anunciar o Evangelho com minha vida! Isso acontece com uma pessoa de cada vez e vai exigir muito de nós, mas nossa recompensa será grande assim como o foi para os apóstolos.

Então, para onde o Espírito Santo está enviando você e eu? Nosso tempo é agora e a necessidade em nosso mundo é tremenda. Não gaste sua vida inteira contando até um bilhão ou pensando no custo de levar Cristo ao mundo. Agora é realmente o momento de comprometer todas as nossas energias com a nova evangelização e com a missão ad gentes. Vinde, Espírito Santo!

_____________

Autor: Phillip Douglas

Phillip Douglas e sua esposa, junto com seus seis filhos, são missionários católicos leigos em tempo integral servindo no sudeste da Ásia com a Family Missions Company.

Fonte: Ascension Press

Traduzido por Mariana Leite – servindo no Núcleo de Tradução da Rede de Missão Campus Fidei.

Deixe seu comentário